Porque eu odeio crianças - II

Fiz o almoço, Já que hoje é sábado, dia oficial de arrumar o cabelo. E minha mãe trabalha até tarde.
Depois de lavar a louça, eu naturalmente ia limpar o chão. Fui ao terraço, no intuito de pegar um balde com água.

Deus, eu poderia ter tido um acesso de preguiça e não ido lá pra cima. Iria me poupar.

Cheguei lá e dei de cara com uma menina pequena. Uns cinco anos no máximo. "Só porque eu não estou pra criança hoje."

-Oi! - disse ela.
-Oi. - disse eu.
-Vai fazer o quê? Arrumar cabelo igual a minha mãe?
-Eu vou pegar um balde. - Nisso eu olhei o pescoço dela. Havia uma corrente prateada nele. Uma criança Headbanger? Levei dois segundos pra perceber.

Aquela corrente era minha.

Ergui os olhos para a antiga mesa do meu desktop, onde hoje guardo umas coisas, e faço desenhos. Lá estava minha caixinha onde guardo correntes e materiais para brincos, chaveiros e decorações em geral.

Estava aberta.

Tive que me conter. Afinal, a culpa era minha, eu havia esquecido a caixa ali...
Espere.
A casa é minha.
Ou pelo menos será ainda.
A intrusa era a garota.
Me perguntei se essas crianças não têm pai para olhá-las enquanto as mães vão no salão.
Estava ficando irritada. E eu nunca fico irritada.

Peguei a caixa, fechei e guardei. Apanhei meu balde. A criança falou algo com a mãe, que eu não ouvi direito por causa do secador e dos meus pensamentos do tipo "hoje eu falo com Ranieri que eu NÃO quero ter filhos!" 
Aí minha mãe desligou o secador.

-Então você vai ajudar a Camila a passar pano na cozinha?

Gelei.
Tinha que correr.
Mas o balde cheio de água não me ajudou.
A menina veio atrás de mim. Desceu as escadas como um foguete. Parei em frente à cozinha e disse pra ela ficar lá no terreiro varrendo.
Fui passar o pano. Tudo corria bem, até que eu me virei, quando o chão estava quase seco.... Pegadas. Cor de terra rosa. E no meio da cozinha, a menina. Feliz, de vassoura na mão.

"Não. Eu não quero ter filhos."

Com algum custo, eu fiz ela sair. Limpei tudo de novo. Ela voltou para a mãe, se vangloriando da grande ajuda que me deu.

 ¬¬"

Levei o balde lá pra cima. Pra quê, Odin! Pra quê?!
A menina estava lá me espreitando. Parecia que queria me seguir de novo... Não, de novo não. Fui ao cômodo-salão, pra ver se a menina ficava lá com a mãe dela.

Quase infartei.

Meus pincéis, esparrodados no chão, junto com pincéis de pintar cabelo e revistas. Em outro canto, os potes que uso pra misturar tinta. Mais ao lado, as ditas tintas...

Tive vontade de falar pra mãe da menina pra não trazer crianças ao local se não tem condições de vigiá-las.

Mas eu posso estar com a raiva que for, eu nunca digo, sempre guardo pra mim.
Critical error da minha life, mas eu sou assim, fazer o quê?

A mulher prometeu que ia fazer a menina colocar tudo no lugar. E assim foi.
Menos mal.
Pelo menos não arruinou um desenho meu.

Mas meu dia ainda estava só no meio.

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